O Congresso pela Liberdade da Cultura (em inglês: Congress for Cultural Freedom, CCF) foi uma organização cultural anticomunista fundada em 26 de junho de 1950 em Berlim Ocidental. Em seu auge, o CCF esteva ativo em 35 países. Em 1966, foi revelado que a Agência Central de Inteligência (CIA, do inglês Central Intelligence Agency) foi fundamental no estabelecimento e financiamento do grupo. O congresso tinha como objetivo recrutar intelectuais e formadores de opinião para uma guerra de ideias [en] contra o comunismo. A historiadora Frances Stonor Saunders escreve (1999): “Gostassem ou não, soubessem ou não, havia poucos escritores, poetas, artistas, historiadores, cientistas ou críticos na Europa do pós-guerra cujos nomes não estivessem, de alguma forma, ligados a esta empresa secreta.” Peter Coleman argumenta que o CCF participou de uma luta pela mente “da Europa do pós-guerra” e do mundo em geral.
Origens (1948–1950) O CCF foi fundado em 26 de junho de 1950, em Berlim Ocidental, que havia acabado de suportar meses de bloqueio soviético. A formação do CCF ocorreu em resposta a uma série de eventos orquestrados pela União Soviética: o Congresso Mundial dos Intelectuais pela Paz em Breslávia (Polônia) em agosto de 1948; um evento semelhante em abril do ano seguinte em Paris, o Congresso Mundial dos Partidários da Paz; e seu ápice na criação do Conselho Mundial da Paz, que em março de 1950 emitiu o Apelo de Estocolmo. Como parte desta campanha, também houve um evento na cidade de Nova Iorque em março de 1949: a Conferência Cultural e Científica pela Paz Mundial no Hotel Waldorf Astoria, que contou com a presença de muitos liberais, esquerdistas e pacifistas proeminentes dos EUA que pediam paz com a União Soviética. Entre os participantes notáveis estavam Dmitri Shostakovich e Aaron Copland. Os oponentes anticomunistas da conferência se hospedaram no Hotel Waldorf Astoria em uma tentativa de desacreditar a conferência de paz. Esses anticomunistas tentaram reunir uma série de apoiadores internacionais para sua causa, incluindo Benedetto Croce, T.S. Eliot, Karl Jaspers, André Malraux, Bertrand Russell e Igor Stravinsky. A conferência de fundação do Congresso pela Liberdade da Cultura contou com a presença de importantes intelectuais dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Entre aqueles que foram a Berlim em junho de 1950 estavam escritores, filósofos, críticos e historiadores: Franz Borkenau, Karl Jaspers, John Dewey, Ignazio Silone, Jacques Maritain, James Burnham, Hugh Trevor-Roper, Arthur Schlesinger Jr., Bertrand Russell, Ernst Reuter, Raymond Aron, A.J. Ayer, Benedetto Croce, Arthur Koestler, Richard Löwenthal, Melvin J. Lasky, Tennessee Williams, Irving Brown e Sidney Hook. Havia conservadores entre os participantes, mas esquerdistas não comunistas (ou ex-comunistas) eram mais numerosos. Irving Kristol, que mais tarde se tornaria conhecido como o “padrinho do neoconservadorismo”, também estava presente. Durante a conferência em Berlim, Nicolas Nabokov proclamou: “Com este Congresso, devemos construir uma organização de guerra”. O Manifesto do Congresso foi redigido por Arthur Koestler, com emendas adicionadas a partir de uma proposta do historiador Hugh Trevor-Roper e pelo filósofo A. J. Ayer.
Comitê Executivo e Secretariado Um Comitê Executivo foi eleito em 1950, durante a conferência de fundação em Berlim, com sete membros e seis suplentes: Irving Brown (Haakon Lie), Arthur Koestler (Raymond Aron), Eugen Kogon (Carlo Schmid), David Rousset (Georges Altman), Ignazio Silone (Nicola Chiaromonte), Stephen Spender (Tosco Fyvel) e Denis de Rougemont, que se tornou presidente do comitê. A gestão do CCF foi confiada ao seu secretariado, chefiado por Michael Josselson. Quando Josselson se juntou ao Congresso pela Liberdade da Cultura em 1950, ele era "sem dúvida um oficial da CIA". Um poliglota capaz de conversar fluentemente em quatro línguas (inglês, russo, alemão e francês), Josselson esteve profundamente envolvido na crescente gama de atividades do CCF — suas publicações, conferências globais e seminários internacionais — até sua renúncia em 1967, após a exposição do financiamento da CIA.
Atividades (1950–1966) No seu auge, o CCF tinha escritórios em 35 países, empregava dezenas de funcionários e publicava mais de 20 revistas de prestígio. Realizava exposições de arte, possuía um serviço de notícias e reportagens, organizava conferências internacionais de alto nível e recompensava músicos e artistas com prêmios e apresentações públicas. Entre 1950 e 1966, o Congresso patrocinou inúmeras conferências. Uma lista seletiva descreve 16 conferências na década de 1950, realizadas principalmente na Europa Ocidental, mas também em Rangum, Cidade do México, Tóquio, Ibadã e Vietnã do Sul. A Conferência de Fundação em Berlim foi seguida em 1951 pela Primeira Conferência Asiática pela Liberdade da Cultura, realizada em Bombaim. Para a primeira metade da década de 1960, há registro de mais 21 conferências, realizadas em uma área geográfica ainda mais ampla. No início da década de 1960, o CCF lançou uma campanha contra o poeta chileno Pablo Neruda, um comunista fervoroso. A campanha se intensificou quando surgiu a possibilidade de Neruda ser candidato ao Prêmio Nobel de Literatura em 1964, embora ele também tenha sido publicado no Mundo Nuevo, um periódico patrocinado pelo CCF. Outros intelectuais proeminentes que se tornaram alvos do CCF foram Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Thomas Mann, que estava se tornando cada vez mais pró-soviético. De 1950 a 1969, o CCF financiou escritores alemães como Heinrich Böll e Siegfried Lenz.
Envolvimento da CIA revelado (1966) Em abril de 1966, o The New York Times publicou uma série de cinco artigos sobre os objetivos e métodos da CIA. O terceiro desses artigos começou a detalhar organizações de fachada e a transferência secreta de fundos da CIA para, por exemplo, o Departamento de Estado dos EUA ou para a Agência de Informação dos Estados Unidos (USIA, na sigla em inglês), que “podem ajudar a financiar uma pesquisa acadêmica e sua publicação, ou a agência pode canalizar dinheiro para pesquisa por meio de fundações — legítimas ou de fachadas”. O New York Times citou, entre outros, o financiamento da CIA ao Congresso pela Liberdade da Cultura, à revista Encounter, a “várias editoras americanas”, ao Centro de Estudos Internacionais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e a um projeto de ajuda externa no Vietnã do Sul administrado pela Universidade Estadual de Michigan. Em 1967, as revistas norte-americanas Ramparts e The Saturday Evening Post noticiaram o financiamento pela CIA de uma série de organizações culturais anticomunistas com o objetivo de ganhar o apoio de liberais supostamente simpatizantes à União Soviética em todo o mundo. Essas reportagens ganharam credibilidade a partir de uma declaração de um ex-diretor de operações secretas da CIA, admitindo o financiamento e a operação do CCF pela CIA. O site da CIA afirma que “o Congresso para a Liberdade da Cultura é amplamente considerado uma das operações secretas mais ousadas e eficazes da Guerra Fria conduzidas pela CIA.” Naquele mesmo ano, em maio, Thomas Braden, chefe da Divisão de Organizações Internacionais, órgão controlador do CCF, respondeu ao relatório Ramparts em um artigo intitulado “Estou Feliz que a CIA seja ‘Imoral’”, no Saturday Evening Post, defendendo as atividades de sua unidade dentro da CIA. Braden admitiu que, por mais de dez anos, a CIA havia subsidiado a revista Encounter por meio do CCF, que também recebia financiamento da agência; ele acrescentou que um dos membros da equipe da revista era um agente da CIA.
Legado Em 1967, a organização foi renomeada para Associação Internacional pela Liberdade da Cultura (International Association for Cultural Freedom, IACF) e continuou a existir com financiamento da Fundação Ford. Herdou “as revistas e comitês nacionais restantes, a prática de seminários internacionais, os programas regionais e o ideal de uma comunidade mundial de intelectuais”. Houve também, até 1970, “alguma continuidade de funcionários”. Sob a liderança de Shepard Stone e Pierre Emmanuel, a política dominante da nova Associação mudou das posições defendidas por sua antecessora. Não houve “protestos públicos antissoviéticos”, “nem mesmo em apoio aos oprimidos Soljenitsin e Sakharov”. O ápice dessa abordagem foi um vasto seminário em Princeton sobre "Os Estados Unidos: Seus Problemas, Impacto e Imagem no Mundo" (dezembro de 1968), onde foram feitas tentativas infrutíferas de engajamento com a Nova Esquerda. A partir de 1968, comitês e revistas nacionais (ver Publicações do CCF/IACF abaixo) fecharam-se um após o outro. Em 1977, o escritório de Paris foi fechado e, dois anos depois, a Associação votou por sua dissolução. Algumas das publicações que começaram como veículos apoiados pelo CCF conquistaram um público e relevância contínua que, com outras fontes de financiamento, lhes permitiram sobreviver por muito mais tempo do que a organização-mãe. A Encounter continuou a publicar até 1991, assim como a Survey, enquanto a australiana Quadrant e a China Quarterly existem até hoje. Embora a revelação do financiamento da CIA tenha levado a algumas demissões, notadamente a de Stephen Spender da Encounter, fora da Europa o impacto foi mais dramático: em Uganda, o presidente Milton Obote mandou prender Rajat Neogy, o editor da próspera revista Transition. Depois que Neogy deixou Uganda em 1968, a revista deixou de existir. O Fundo Europeu de Ajuda Mútua Intelectual (Fondation pour une Entraide Intellectuelle Européenn), criado para apoiar intelectuais na Europa Central, começou como afiliado do Congresso pela Liberdade da Cultura. Em 1991, fundiu-se com a Open Society Foundations, criada e apoiada pelo financista e filantropo George Soros. Os registros da Associação Internacional pela Liberdade da Cultura e de seu antecessor, o Congresso pela Liberdade da Cultura, estão hoje armazenados na Biblioteca da Universidade de Chicago, em seu Centro de Pesquisa de Coleções Especiais.
Publicações O Congresso fundou, patrocinou ou incentivou uma série de publicações para disseminar suas ideias. Algumas delas são as seguintes:
Embora a The Paris Review tenha sido cofundada pelo romancista e agente da CIA Peter Matthiessen, que era afiliado ao CCF, a revista era supostamente uma fachada para Matthiessen e não parte das operações do CCF. No entanto, a The Paris Review frequentemente vendia entrevistas que realizava para revistas estabelecidas pelo CCF.
Bibliografia Bahr, Ehrhard (2008). Weimar on the Pacific: German Exile Culture in Los Angeles and the Crisis of Modernism. [S.l.]: University of California Press. ISBN 978-0520257955 Berghahn, Volker R.: America and the Intellectual Cold Wars in Europe. Shepard Stone between Philanthropy, Academy, and Diplomacy. Princeton: Princeton UP, 2001. Addresses links between Ford Foundation and CCF. Coleman, Peter, The Liberal Conspiracy: The Congress for Cultural Freedom and the Struggle for the Mind of Postwar Europe, New York: Free Press, Collier Macmillan, 1989. Michael Hochgeschwender, Freiheit in der Offensive? Der Kongreß für kulturelle Freiheit und die Deutschen, München, 1998 (comprising academic study on the origins, in German). Rubin, Andrew N. (2012). Archives of Authority: Empire, Culture, and the Cold War. [S.l.]: Princeton University Press. ISBN 978-1-4008-4217-9 Frances Stonor Saunders, The Cultural Cold War: The CIA and the World of Arts and Letters, 2000, The New Press, (ISBN 1-56584-596-X). Originally published in the UK as Who Paid the Piper?: CIA and the Cultural Cold War, 1999, Granta, ISBN 1862070296. Wellens, Ian (2002). Music on the Frontline: Nicolas Nabokov's Struggle against Communism and Middlebrow Culture. Aldershot: Ashgate. ISBN 0-7546-0635-X ISBN 0-7546-0635-X
Ver também Quem Pagou a Conta?
Referências
Ligações externas «Guide to the International Association for Cultural Freedom Records 1941-1978». Library. University of Chicago The Cultural Cold War The Ghostwriter et la CIA