A cultura das catacumbas (em russo: Катакомбная культура, em ucraniano: Катакомбна культура) foi uma cultura da Idade do Bronze que se desenvolveu na estepe pôntica entre 2500 e 1950 a.C. Originária da estepe meridional como um desdobramento da cultura Yamna, a cultura das catacumbas passou a abranger uma vasta área. Os seus habitantes, provavelmente, eram falante de línguas indo-europeias, com alguns linguistas associando-as ao tocariano. Há indícios de que a influência da cultura das catacumbas se estendeu até à Itália, Grécia e Síria, dando origem à cultura da cerâmica multicordada e foi sucedida pela cultura Srubna.
Origens A cultura das catacumbas surgiu na parte sul da estepe pôntica por volta de 2500 a.C., como descendente ocidental da cultura Yamna. As influências vindas do oeste parecem ter desempenhado um papel decisivo na formação da cultura das catacumbas. Além da cultura Yamna, a cultura das catacumbas apresenta ligações com a anterior cultura de Chortitsia, a cultura de Afanasievo [en] e a cultura Poltavka [en].
Distribuição
A cultura das catacumbas estendeu-se pela estepe pôntica, uma área que anteriormente havia sido ocupada pela cultura Yamna. Tratava-se de uma vasta região e, com base nos estilos cerâmicos e nas práticas funerárias, foram identificadas variantes regionais. Com base nisso, a cultura das catacumbas é considerada por alguns como uma "área histórico-cultural", sendo as variantes regionais classificadas como culturas distintas por si só. No leste, fazia fronteira com a cultura Poltavka, uma variante oriental da cultura Yamna, influenciando o desenvolvimento da mesma. Ao longo de sua existência, expandiu-se para o leste e norte. A arqueóloga Elena Efimovna Kuzmina sugere que o fenômeno Seima-Turbino [en] surgiu como resultado da interação entre a cultura de Abashevo [en], a cultura das catacumbas e a cultura de Andronovo primitiva. Foram encontradas evidências da influência da cultura das catacumbas muito além da estepe pôntica. Suas câmaras funerárias, tipos de metais e estatuetas são muito semelhantes aos encontrados na Itália e no Leste do Mediterrâneo, enquanto o alfinete em forma de cabeça de martelo, um ornamento característico da cultura das catacumbas, foi encontrado na Europa Central e na Itália. Com base nessas semelhanças, supõe-se que tenha havido migrações ou difusão cultural da cultura das catacumbas para essas regiões. As semelhanças com a Grécia micênica incluem tipos de pontas de lança, peças de arreios e o costume de confeccionar máscaras mortuárias. A cultura Lola surgiu no norte do Cáucaso por volta de 2200 a.C. como resultado de migrações provenientes do leste do Cáucaso, substituindo variantes locais da cultura das catacumbas.
Características
Enterros
A cultura das catacumbas recebe esse nome por seus enterros, que ampliavam as covas da cultura Yamna com nichos funerários na base, as chamadas catacumbas. Tais sepulturas também foram encontradas na Grécia micênica e em partes do Leste Europeu. Os mortos eram costumavam ser enterrados em posição flexionada sobre o lado direito, acompanhados de ornamentos como anéis de prata e armas como machados, flechas, adagas e maças. Sacrifícios de animais ocorrem em cerca de 16% das sepulturas, incluindo cabeças e cascos de cabras, ovelhas, cavalos e bovinos. Os sacrifícios de bovinos são mais frequentes do que na cultura Yamna e os sepultamentos com cavalos também aparecem em culturas anteriores, como a cultura de Khvalynsk [en] e a Poltavka. Alguns sepultamentos eram cobertos por estelas de kurgan [en], prática comum também na cultura Yamna. Cerca de trezentas estelas foram encontradas e associadas às culturas Yamna e das Catacumbas.
Os sepultamentos também eram, em alguns casos, acompanhados de veículos com rodas. Esse tipo de sepultamento tem registros na antiga cultura Yamna e, posteriormente, entre os povos iranianos (citas), celtas e itálicos. Alguns aspectos do rito funerário da cultura das catacumbas foram detectados na cultura Bishkent do sul do Tajiquistão. Em alguns casos, o crânio dos falecidos das Catacumbas era modelado em argila. Isso envolvia preencher a boca, as orelhas e a cavidade nasal com argila e modelar as características superficiais do rosto. Essa prática está associada a sepultamentos de alta posição social que continham objetos de prestígio e era realizada em homens, mulheres e crianças. Acredita-se que essas máscaras de argila possam ter servido de protótipo para as máscaras de ouro encontradas posteriormente na Grécia micênica.
Economia
A economia da cultura das catacumbas baseava-se principalmente na pecuária. Foram encontrados restos de bovinos, ovinos, caprinos, equinos e alguns suínos. Restos vegetais são extremamente raros, mas foram encontrados vestígios de trigo, como Triticum monococcum e o farro. Arados de madeira foram encontrados em sepulturas das Catacumbas, indicando que se praticava a agricultura. Os tipos de ferramentas utilizadas pelo povo das catacumbas sugerem que essa cultura contava com vários artesãos especializados, incluindo tecelões, ourives e fabricantes de armas. Tipos de metais semelhantes aos da cultura das catacumbas surgem posteriormente na cultura Abashevo.
Assentamentos Há pouca evidência de assentamentos na cultura das catacumbas e estes são, em sua maioria, acampamentos sazonais localizados próximos a fontes de água. Um assentamento maior foi encontrado em Matveyevka, no sul do rio Bugue. Ele possui três grandes estruturas com fundações de pedra. Na ilha de Bayda, no rio Dniepre, foi encontrada uma fortaleza construída em pedra do final do período das catacumbas, com um fosso ao redor.
Cerâmica A cerâmica das catacumbas é mais elaborada do que a da cultura Yamna. Vasos com base baixa, descobertos em sepultamentos femininos, podem ter sido usados em rituais que incluíam o uso de substâncias narcóticas como o cânhamo. É possível que a cerâmica deste período tenha influenciado a cerâmica da cultura Abashevo e da cultura de Sintashta.
Armas Evidências de arco compostos primitivos foram encontradas na cultura das catacumbas, assim como aljavas com espaço para dez a vinte flechas. Suas pontas de flecha podem ter influenciado as da cultura de Sintashta. Suas pontas de flecha de sílex com base oca são semelhantes às da cultura do Médio Dniepre. Os machados de pedra da cultura das catacumbas são semelhantes aos da cultura de Fatyanovo-Balanovo [en]. Uma faca datada de cerca de 2500 a.C., atribuída à cultura das catacumbas no Donets, possuía um cabo de bronze arsênico e uma lâmina feita de ferro.
Outras características As miçangas de bronze com protuberâncias da cultura das catacumbas são semelhantes às da cultura de Sintashta. Algumas variantes da cultura das catacumbas, especialmente aquelas centradas no Donets, podem ter praticado deformação craniana como um recurso estético ou um marcador étnico. Cerca de 9% dos crânios encontrados apresentavam perfurações, o que pode ter sido associado a uma prática ritual ou médica. Restos de ursos já foram encontrados em sítios do período das catacumbas.
Demografia Estima-se que a cultura das catacumbas tenha incluído cerca de 50.000 a 60.000 indivíduos.
Tipo físico Os indivíduos da cultura das catacumbas eram de constituição robusta caucasiana. Seus crânios são semelhantes aos da cultura Potapovka. Os crânios dos túmulos de Potapovka são menos dolicocefálicos do que os das culturas Fatyanovo-Balanovo, Abashevo, Sintashta, Srubna e Andronovo. O tipo físico da Potapovka parece ter surgido por meio de uma mistura entre o tipo fortemente dolicocefálico de Sintashta e o tipo menos dolicocefálico das culturas Yamna e Poltavka. Os indivíduos da cultura das catacumbas foram descritos como "mais robustos e possuíam crânios mais braquicefálicos" do que indivíduos pertencentes à cultura Yamna".
Genética
Pashnik et al. (2014) analisaram o DNA dos restos de 28 indivíduos da cultura das catacumbas. Seus haplogrupos maternos U5 e U4 apareceram em frequências mais altas do que na cultura Yamna precedente. Os haplogrupos U5 e U4 são típicos de caçadores-coletores ocidentais e caçadores-coletores orientais [en]. Além disso, foi detectada uma similaridade genética geral entre os indivíduos da cultura das catacumbas e caçadores-coletores do norte, especialmente o povo da cultura da cerâmica perfurada [en] do sul da Escandinávia. Suspeita-se que os povos das catacumbas e os povos da Yamna não tivessem tanta mistura genética quanto se acreditava anteriormente, e a população atual da Ucrânia tem uma relação mais próxima com os povos da cultura Yamna do que com os da cultura das catacumbas. De modo semelhante, Nikitin et al. (2017), e Juras et al. (2018) encontraram o haplogrupo U5 e U5a. Estas e outras sublinhagens do haplogrupo U foram encontradas em altas frequências entre caçadores-coletores iniciais da Europa Setentrional e do Leste Europeu. Desde o Mesolítico, eles aparecem entre populações da estepe pôntica, incluindo a cultura de Chortitsia, a cultura Yamna, a cultura da cerâmica cordada, a cultura de Andronovo, a cultura Srubna [en] e os citas. Isso sugere continuidade do DNA mitocondrial entre populações da estepe pôntica remontando, pelo menos, à Idade do Bronze. Em um estudo genético publicado na revista Scientific Reports [en] em 2018, os restos de dois indivíduos da cultura das catacumbas foram analisados. Ambos foram identificados como pertencentes ao haplogrupo X4 [en]. Eles são os primeiros indivíduos antigos identificados com essa linhagem, que é muito rara entre populações modernas. Em um estudo de fevereiro de 2019 publicado na revista Nature Communications, os restos de cinco indivíduos atribuídos à cultura das catacumbas foram analisados. Três homens foram identificados como portadores do R1b1a2. Em relação ao mtDNA, todos os cinco indivíduos apresentaram várias sublinhagens do haplogrupo U (particularmente U5 e U4).
Linguística David Anthony (2007, p. 306) supõe que a cultura das Catacumbas era falante de línguas indo-europeias. Em alguns casos, ela foi considerada ancestral das línguas indo-iranianas ou da língua trácia. Outros estudiosos sugeriram que a cultura serviu de base comum para as línguas grega, armênia e indo-iraniana. Guus Kroonen et al. (2022) defendem a existência de uma possível associação entre a cultura das catacumbas e as primeiras línguas tocarianas, antes de sua disseminação para o leste.
Sucessoras A cultura Srubna foi uma sucessora da cultura das Catacumbas e é possível que a cultura Abashevo tenha sido parcialmente derivada da cultura das catacumbas. Partes da área da cultura das catacumbas passaram a ser ocupadas pela cultura Abashevo, e posteriormente pela cultura Srubna. A cultura da cerâmica multicordada [en] foi uma sucessora oriental da cultura das catacumbas. Esta, por sua vez, pode ter desempenhado um papel no surgimento das culturas Potapovka e Sintashta, e, assim, na formação da cultura de Andronovo. Dados morfológicos sugerem que a cultura de Sintashta pode ter surgido como resultado de uma mistura de ancestralidade de pastores das estepes ocidentais das culturas Poltavka e das catacumbas, com ancestralidade de caçadores-coletores do período Neolítico.
Galeria
Notas
Referências
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