A Folha de S.Paulo admitiu, pela primeira vez, que recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro. O jornal afirmou que o banqueiro preso pagou R$ 516.441,60 em anúncios ao longo de cinco anos e comparou: “Cerca de 2,58% do total de R$ 20 milhões em pagamentos feitos por Vorcaro ao Metrópoles”. Leia também BrasilFolha de S.Paulo recebeu Vorcaro e omitiu reunião dos leitores a pedido do banqueiro BrasilDaniel Vorcaro pagou R$ 1 milhão para “adiar” e “amenizar” matéria na Folha de S.Paulo Em resposta aos questionamentos do Metrópoles sobre mensagens que revelam interferência de Vorcaro em uma reportagem do jornal sobre o perfil do banqueiro, a Folha de S.Paulo também afirmou desconhecer o pagamento de R$ 1 milhão feito pelo dono do Banco Master ao gestor de crise Guilherme Barros a título de “prêmio” por ter conseguido “adiar e “amenizar” matéria publicada no jornal.Como o Metrópoles mostrou, a negociação foi feita com o diretor de redação da Folha, Sérgio Dávila.As negociações constam em uma série de conversas obtidas pelo Metrópoles entre o banqueiro e Guilherme Barros, um dos principais gestores de crise do país.“A Folha vai segurar a matéria. O Sérgio me respondeu agora”, informou Guilherme Barros a Vorcaro às 13h27 do dia 8 de agosto de 2024. Barros refere-se a Sérgio Dávila, diretor da redação da Folha de S.Paulo.No dia anterior a este diálogo, portanto em 7 de agosto, Vorcaro deu o seguinte comando: “Gasta todos seus cartuchos aí, se voce conseguir segurar e nao sair nada vc tem um prêmio de R$ 1mm. Sei que você é guerreiro de toda forma, mas faço isso pra você cobrar favores. Se eles soltam isso agora eles vao quebrar o banco (sic)”.As mensagens indicam que a matéria seria publicada em uma semana decisiva para a sobrevivência do Master. No dia 8, o Banco Central homologou o aumento de capital do Banco de Brasília (BRB) que permitiu posteriormente ao BRB comprar mais de R$ 16 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master. Esta foi a operação que deu sobrevida à instituição de Vorcaro.Àquela altura, matérias negativas sobre Vorcaro poderiam afugentar a operação. O próprio banqueiro diz isso na conversa com seu gestor de crise: “Se eles soltam isso agora eles vao quebrar o banco”.Ainda em agosto de 2024, o Master fechou a compra do Will Bank e Vorcaro fez enorme esforço político pela emenda Master, que foi apresentada em 13 de agosto. A medida aumentaria a cobertura dada pelo FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.A Folha de S.Paulo topou o jogo e segurou a matéria por pelo menos 22 dias. O texto só foi publicado em 30 de agosto sob o título “Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama a atenção para aquisição em séries e festa com Alok”.Um dia após segurar a reportagem atendendo aos anseios de Daniel Vorcaro, o gestor de crise Guilherme Barros informa a Vorcaro que Sérgio Dávila solicitou data para tomar um café com o banqueiro: “O Sérgio Dávila acabou de me pedir uma data para tomar um café contigo e eu”. No que Vorcaro responde: “Pode marcar qq dia”.6 imagensFechar modal.1 de 62 de 63 de 64 de 65 de 66 de 6De acordo com a troca de mensagens, o encontro ocorreu na sede da Folha de S.Paulo dia 12 e contou com a presença de Sérgio Dávila, além de dois editores. O encontro não foi registrado publicamente pela Folha, como é praxe da publicação.Vorcaro fez valer sua vontade em matéria da FolhaA partir do encontro entre Vorcaro e Sérgio Dávila, as conversas de WhatsApp demonstram que o banqueiro conseguiu interferir no conteúdo que viria a ser publicado. Como revelam as mensagens de Guilherme Barros a Vorcaro, trechos que enalteciam a performance do Banco Master foram publicados tais quais repassados pelo gestor de crise da instituição financeira.O texto feito por Guilherme Barros e aprovado por Daniel Vorcaro sugere que a matéria da Folha de S.Paulo aborde “dados positivos”, como a antecipação da meta de patrimônio líquido de R$ 5 bilhões, o objetivo de elevar a cifra até R$ 10 bilhões em 2026, a aquisição da Kovr [Seguradora], além da criação de um comitê estratégico formado por Henrique Meirelles e Gustavo Loyola.O ponto mais polêmico envolvendo o Banco Master e que, àquela altura, já era questionado pelo mercado financeiro é enaltecido pela reportagem sem nenhum tipo de questionamento. Os CDBs do Banco Master são tratados como “os mais rentáveis do mercado”.Este trecho específico foi excluído da matéria após a prisão de Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025.Também foram retiradas da reportagem informações sobre as metas positivas do Banco Master.Veja:4 imagensFechar modal.1 de 42 de 43 de 44 de 4Edição pós-prisãoAo mesmo tempo em que excluiu trechos favoráveis e de interesse de Vorcaro, a Folha de S.Paulo inseriu um parágrafo de sentido totalmente oposto. Na versão editada da matéria, segundo comprova a comparação entre os textos, a operação agora é descrita como uma “estratégia agressiva de venda de CDBs com alta remuneração aos aplicadores”.O leitor da Folha de S.Paulo não foi informado de que pedaços da reportagem foram suprimidos e outros foram enxertados. Segundo o Manual de Redação da Folha de S.Paulo, “suprimir ou inserir uma informação de um texto pode alterar o significado da notícia”. O documento que ampara o trabalho dos jornalistas diz que a Folha costuma manter uma “atitude de permanente transparência diante dos seus leitores”.Folha não cita casa de Orlando como queria VorcaroAo oferecer R$ 1 milhão para o gestor de crise interferir na publicação da Folha de S.Paulo, Daniel Vorcaro demonstra sua maior preocupação.“Falar de casa orlando? A casa do meu pai. Nao tenho negocios com ele ha quase 5 anos. Eu nem conversar com ele estou. Estamos brigados. O que tenho a ver com imovel dele? (sic)”A reportagem publicada pela Folha cita o pai de Vorcaro, seus negócios, mas nenhuma linha sobre a tal mansão em Orlando.Após o sucesso da operação com a Folha de S.Paulo, Guilherme Barros cobra de Daniel Vorcaro o dinheiro prometido pela gestão da crise.Veja o que disse o gestor:“No episódio da matéria da Folha, vc tinha me falado sobre um success fee, caso a matéria não saísse. A matéria, evidentemente, saiu, porem muito mais branda, o que espero que concorde. Mas, enfim, saiu, e quero te deixar, evidentemente, super a vontade. Afinal, nao fiz e jamais vou fazer qualquer trabalho para amigos como voce movido por success fee ou qualquer coisa do genero. E voce tem consciencia disso. Gosto de voce, te considero um amigo e estou sempre à disposição. Sinta-se realmente a vontade. Vou entender perfeitamente, muito embora, qualquer ajuda seria muito bem-vinda. Abração” (sic).Daniel Vorcaro demonstra sua satisfação com o trabalho entregue por Barros dizendo que “amigo, vc merece muito, vamos ajustar (sic)”.Vorcaro fez o Pix.Confira as perguntas do Metrópoles e respostas da Folha: 1. Na conversa, Guilherme Barros diz explicitamente que Sérgio Dávila segurou a publicação da reportagem “Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama a atenção para aquisição em séries e festa com Alok” e o fez atendendo a um pedido de Vorcaro, repassado pelo gestor de crise. A Folha gostaria de comentar?A reportagem não foi segurada porque não estava pronta. O pedido de Vorcaro foi de prazo para ser ouvido, o que foi concedido.2. No dia seguinte ao adiamento da matéria, Sérgio Dávila pediu para “tomar um café” com Daniel Vorcaro, na sede da Folha. Dávila confirma que partiu dele o pedido para o encontro? Por que razão a reunião não foi registrada na coluna Painel, como é praxe no jornal?O pedido de café foi de Guilherme de Barros, com o objetivo de o ex-banqueiro dar o seu lado para a reportagem, assim como o pedido para que a visita não fosse registrada no Painel. Ele foi atendido em ambas as demandas.3. Guilherme Barros recebeu de Vorcaro R$ 1 milhão para segurar e, depois, “amenizar” o texto da reportagem publicada pela Folha. As edições da reportagem publicadas no impresso e na versão digital demonstram que os anseios de Vorcaro foram atendidos. Mais de um ano depois, o texto publicado no digital foi editado, e trechos favoráveis ao banqueiro foram suprimidos sem que o leitor fosse informado da decisão do jornal. O que a Folha diz sobre isso?Os anseios de Vorcaro não foram atendidos, a reportagem não foi segurada, saiu no prazo programado, e não foi amenizada, saiu em sua versão original. As alterações posteriores foram para incluir a prisão do ex-banqueiro, ocorrida no ano seguinte. O leitor sempre é informado de alterações feitas, por meio de aviso publicado abaixo da data original.4. Sérgio Dávila tinha conhecimento que Guilherme Barros recebeu R$ 1 milhão de Daniel Vorcaro para interferir na dinâmica e no conteúdo da reportagem em questão?Não, apenas depois de ler as mensagens vazadas nos últimos dias.5. A Folha recebeu algum patrocínio ou verba de publicidade de alguma empresa ou negócio vinculado a Daniel Vorcaro?Sim, ao longo de cinco anos a Folha recebeu um total de R$ 516.441,60 em anúncios veiculados no jornal, ou cerca de 2,58% do total de R$ 20 milhões recebidos em apenas um dos pagamentos feitos por Vorcaro ao Metrópoles.O que diz Guilherme de BarrosEm nota, Guilherme Barros afirmou que “prestou serviços de assessoria de imprensa ao Banco Master até 2025, quando encerrou o contrato com a instituição”. “Entre as atividades de consultor, estão a organização de entrevistas e de reuniões com veículos de imprensa e a apresentação dos argumentos do cliente para as reportagens”, declarou.“Sempre atuou de forma transparente, com correção, ética e respeito à atividade jornalística e à liberdade de expressão.Foi dessa forma que agiu no caso da reportagem da Folha de S.Paulo, ao ser marcada conversa da empresa com o veículo para a prestação de esclarecimentos e as questões encaminhadas foram respondidas. A matéria foi publicada em 30 de agosto de 2024 com absoluta independência editorial do jornal”, disse.





















