Meio ambiente

Emilio Sant'Anna

Colaboração para Ecoa

22/10/2026 17h04

Fumaça cobre Manaus Imagem: Carlos Oliveira/Semcom

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A retomada das políticas contra o desmatamento na Amazônia levou ao aumento do uso do fogo por criminosos como ferramenta para driblar a fiscalização e destruir a floresta, aponta um estudo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) publicado na revista Nature, na mesma semana em que Manaus continua afetada pela fumaça de incêndios.

O que diz o estudo
"Em períodos em que nós temos uma política pública melhor para evitar o desmatamento, eles recorreram ao fogo para desmatar", afirma Luciana Gatti, cientista do Inpe que lidera a pesquisa.
O estudo do Inpe mostra que o fogo foi prática recorrente de criminosos ante um cenário de maior fiscalização do governo federal. "Isso mostra que nós vamos precisar de um PPCDAm [plano de ação do governo federal que conteve a alta e reverteu a tendência de desmatamento] para o fogo, porque o desmatamento está muito bem controlado."
A pesquisa analisou o balanço de carbono da Amazônia entre 2010 e 2024. Para isso, foram 1.017 medições atmosféricas feitas após coletas em voos. Os pesquisadores combinaram as concentrações de gases com dados de desmatamento, área queimada, precipitação e temperatura para distinguir o peso da ação humana e dos eventos climáticos extremos.
Na média dos 15 anos, a região lançou à atmosfera 320 milhões de toneladas de carbono por ano a mais do que absorveu, impulsionada por 400 milhões de toneladas anuais emitidas pelo fogo.
Para separar o peso do clima e o das atividades humanas, os pesquisadores dividiram o período em três grupos.
O primeiro reúne 2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018, mais chuvosos e com menor pressão de desmatamento e queimadas. Neles, o saldo médio de emissões foi de 110 milhões de toneladas de carbono por ano.
No segundo grupo, de 2019 a 2022, o desmatamento foi 97% maior e a área queimada, 25% superior à do primeiro. O saldo anual de emissões chegou a 430 milhões de toneladas de carbono, embora a temperatura média fosse semelhante à dos anos mais chuvosos. Para os autores do estudo, o aumento em condições de baixo estresse climático evidencia o peso da ação humana.
O terceiro grupo reúne os anos de 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, anos quentes e secos associados a eventos como El Niño e aquecimento do Atlântico tropical norte. A chuva anual foi, em média, 13% menor que no primeiro grupo, enquanto a área queimada cresceu 92%. O saldo de emissões atingiu 490 milhões de toneladas de carbono por ano.
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Mesmo nesses anos extremos, o fogo provocado pelo ser humano foi determinante. Para investigar sua origem, os cientistas cruzaram registros de incêndios e descargas elétricas em 2023 e 2024. As ignições associadas a raios representaram apenas 1,6% dos eventos em 2023 e 1,0% em 2024. "A gente esperava encontrar a natureza emitindo, a floresta emitindo, e não foi isso que a gente encontrou", afirma Gatti.
Descontadas as emissões resultantes do fogo, o balanço dos cinco anos quentes e secos indicou absorção média de 60 milhões de toneladas de carbono anuais. A margem de incerteza, de 100 milhões de toneladas, leva o artigo a classificar esse resultado como próximo da neutralidade.
Essa conclusão, porém, não diminui a importância das secas: elas tornam a floresta mais inflamável e ampliam a extensão e a intensidade dos incêndios. O próprio desmatamento agrava essa vulnerabilidade ao reduzir as chuvas, elevar as temperaturas e prolongar a estação seca.
Em 2024, a combinação foi especialmente destrutiva. A área queimada ficou 182% acima da média do grupo de anos mais chuvoso. Segundo o artigo, naquele ano o Prodes identificou que 38% do desmatamento foi causado por fogo.
Desmatamento e fogo
A Amazônia teve, entre agosto de 2025 e julho de 2026, o menor desmatamento registrado desde 1988. Foram 3.335 km², o que representa uma queda de 41,8% em relação ao período anterior. Na contramão dessa melhora, o bioma teve até agora mais de 41,3 mil focos de incêndio neste ano, 58% deles em setembro e outubro. Em todo o ano de 2025, foram 43,1 mil.
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A PF (Polícia Federal) investiga a suspeita de incêndios criminosos no Amazonas e abriu nove investigações nas cidades de Autazes, Careiro Castanho, Careiro da Várzea, Manaquiri, Manaus, Iranduba e Canutama. A apuração utiliza imagens de satélite e informações de órgãos públicos. A PF informou que também prevê sobrevoos em outras áreas para localizar os pontos de origem do fogo. As ações são realizadas em parceria com o Ibama para identificar as causas e os responsáveis pelas queimadas na região.
Nas últimas semanas, com a qualidade do ar "ruim" e "muito ruim", as aulas das redes públicas de ensino tiveram que ser suspensas em Manaus. Na região metropolitana, o Ibama aplicou R$ 2 milhões em multas.
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